Quando ela chega, não bate à porta. Entra sem pedir licença e espalha pelo quarto da infância um anúncio silencioso: acabou-se o tempo das bonecas. O vestido ainda é o mesmo, os sonhos ainda são cor-de-rosa, mas algo mudou para sempre.
Ela chega como um rito não ensaiado.
Rouba da menina o território da inocência e a lança, sem mapa, numa terra desconhecida.
Até então, o corpo era apenas corpo — corria, pulava, dormia. De repente, torna-se mistério, calendário, segredo. Um lugar que sangra e, mesmo assim, permanece inteiro.
Ela impõe uma nova linguagem.
Ensina que agora é preciso cruzar as pernas com cuidado, baixar o tom da voz, esconder o absorvente na manga da blusa como quem carrega um segredo ancestral. Celebra-se o “tornar-se mulher”, mas pede-se silêncio sobre o seu preço.
Instala-se com autoridade. Passa a ser visita todos os meses, como um parente exigente que nunca falha, ou falha justamente quando mais precisamos dele. Decide o humor da casa, muda a disposição dos móveis internos, altera a luz do dia.
Há dias em que chega como tempestade.
Outros, como garoa fina.
Mas sempre chega.
Brinca com nossos afetos, embaralha certezas, amolece o corpo, tensiona os nervos. Às vezes nos recolhe à cama; outras vezes nos arranca da festa. Interrompe encontros, adia planos, mas também oferece álibis generosos para aquilo que nunca soubemos negar.
Com ela aprendemos que a vida não é linha reta, é ciclo.
Durante anos, nossa existência é contada de mês em mês. Passamos a reconhecer os sinais de que está próxima: inchaço discreto, pele que muda, choro fácil, o desejo que cresce ou desaparece. Ela nos ensina a escutar o corpo como quem escuta o vento antes da chuva.
Somos conduzidas por esse compasso invisível.
Dançamos conforme a música que ela toca.
E assim seguimos: férteis de sangue, férteis de possibilidades, férteis até mesmo quando não queremos gerar nada além de nós mesmas.
Até que, um dia, ela começa a falhar, espaça as visitas, torna-se irregular, hesitante, quase estrangeira. O corpo, que antes obedecia ao ciclo, agora parece procurar um novo ritmo.
E então — silêncio.
Nenhuma cólica.
Nenhuma mancha.
Nenhum aviso.
O que durante décadas foi incômodo transforma-se em ausência sonora que ecoa.
Passamos tanto tempo desejando sua partida que não percebemos que, com ela, partia também uma referência. Ela era dor, mas era também sinal de vitalidade. Era desconforto, mas também confirmação de um corpo pulsante, capaz de criar, de gestar, de renovar.
Quando vai embora, não leva apenas o sangue.
Leva uma versão de nós.
Ficamos diante do espelho tentando reconhecer a mulher que resta quando o calendário já não dita regras. Sem a justificativa dos hormônios, sem o abrigo dos “naqueles dias”, sem o velho pijama que nos protegia como um casulo nas tempestades mensais.
E agora?
Quem somos quando não há mais ciclos para nos organizar?
Por isso nos sentimos sem norte, em busca de algum ponto de referência. Sem saber para onde seguir, decidimos parar, ou apenas pausar, até que tudo volte a fazer sentido.
Se antes éramos conduzidas pelo sangue, agora somos convidadas a assumir o comando e conduzir a nós mesmas.
Descobrimos, com espanto e delicadeza, que a feminilidade nunca morou naquilo que descia todos os meses. Morava na capacidade de sentir, de transformar, de atravessar.
Ela nos ensinou sobre começo.
Sua partida nos ensina sobre continuidade e não fim.
E talvez, só talvez, a liberdade não esteja na ausência dela, mas na presença inteira da mulher que ficou.
Uma mulher que já não sangra,
mas transborda de si.



